Em um texto do blog Não São Gêmeos, a Marcela (escritora do referido blog) comentou sobre a “normal” confusão de cabeça de mãe. Eu achei esse termo tão adequado para o contexto que, quando ela me pediu para escrever algo para lá, pensei que esse seria um bom ponto de partida.

Cabeça de mãe é mesmo confusa. Se a sua não é, precisamos conversar!

E não é só porque temos acesso há muita informação ou porque sempre tem alguém dando pitaco do nosso lado. É que na prática, a teoria é outra. Conhece esse ditado?

A verdade é que toda cabeça de mãe é composta por uma mistura de sentimentos.

imagem de mãe e filho num gramado

Sim, cabeça de mãe é confusa

Já nos primeiros dias de vida do bebê somos invadidas por um amor tão intenso quanto conturbado. É uma felicidade imensa ter finalmente aquele serzinho nos nossos braços. Mas no meio de muita choradeira (deles e nossa) percebemos que a vida virou um caos.

Queremos amamentar exclusivamente no peito e em livre demanda, mas também queremos que o bebê tenha uma rotina que inclua dormir a noite toda. Queremos manter acesa a chama do casamento, mas também queremos simplesmente usar um moletom e descansar no sofá da sala. Queremos voltar à nossa vida profissional ativa, mas também queremos estar presentes em todas as conquistas do desenvolvimento do bebê.

Lembro que nesses primeiros meses eu pensava: “posso ser mãe só de manhã?

Aí o filho cresce um pouquinho e a cabeça de mãe fica a mil decidindo se o melhor é deixar ele no colégio em período integral – e não conseguir nem almoçar com ele – ou deixá-lo meio período em casa – com uma pessoa “estranha” sem supervisão.

Nosso coração se parte em pedaços na dúvida entre manter uma educação coerente e consistente e permitir que o pequeno estabeleça sua própria história com os outros. Foi sofrido para mim entender que minha relação com meu filho é uma, minha relação com meus pais é outra e a relação do meu filho com os meus pais é outra ainda. E dar espaço para que duas crianças resolvam sozinhas quem vai ficar com o brinquedo, correndo o risco do meu filho sair perdendo ou machucado? Muito difícil.

A cada fase uma confusão na cabeça da mãe

Aí ele cresce mais um pouco e a gente continua dividida entre permitir que ele desenvolva sua independência e cuidar para que ele não se machuque. A gente incentiva que eles brinquem na rua para pegar sol, mas tem medo que eles caiam no parquinho. A gente estimula que eles pratiquem esporte, mas não gosta das bolas correndo dentro de casa. A gente espera que eles tenham opinião, mas não deixa que eles andem descalço no piso gelado.

E a saudade da vida antes de ser mãe, então? Quem consegue entender que agradeçamos todos os dias a bênção de ser mãe dessa criança linda e inteligente e, ao mesmo tempo, tenhamos tanta saudade de como a vida era boa antes dela chegar?

Somos mesmo muito confusas.

Ultimamente tenho me interrogado muito sobre viagens. Há tantos lugares, pessoas, culturas que quero apresentar para o meu filho… Mas também há tantos programinhas românticos, nights e festas que quero fazer com meu marido… Precisamos de tempo só para gente, para se conhecer, se curtir, se gostar… Mas de que vale a vida se não for para aproveitar cada minuto com aquela pequena pessoinha que tanto amamos?

Muitas vezes eu acho o filhote confuso porque, ao mesmo tempo em que ele quer comer e tirar os sapatos sozinho, ele pede colo para ver um filme ou quando está cansado. Mas mais confusa ainda sou eu, que me esforço para criar um filho consciente e independente, mas morro de medo de perdê-lo pelo mundo. Já me peguei perguntando: “filho, não queres voltar para a barriga?” Ao que ele respondeu: “mamãe, eu não ‘cabo’ mais na sua barriga!

Maternidade real nas cabeças das mães

Minha caminhada como mãe ainda é pequena, mas percebo que essa confusão teima em permanecer na cabeça das mães. Minha mãe, que já tem bem mais de 30 anos nessa estrada, ainda experimenta esse mix de emoções. Por um lado ela quer se fazer sempre presente na minha vida (incluindo minha vida enquanto mãe). Por outro não quer ser invasiva e intrometida. Ela diz que ama seu neto, mas que não devo esquecer que eu é que sou sua filha, não ele. (Te amo, mama!)

É como diz aquela campanha publicitária: o que nós vamos ser quando nossos filhos crescerem? Continuaremos a ser suas mães. E continuaremos com nossos sentimentos misturados. E continuaremos com nossa cabeça confusa.

O texto acima foi adaptado do original publicado no Não São Gêmeos.

imagem de uma mulher com as mãos na cabeça

Culpa em cabeça de mãe (exemplo prático)

Que toda mãe carrega uma boa carga de culpa não é novidade para ninguém. Basta digitar “culpa” no Google que ele automaticamente completa com “culpa de mãe”! A culpa é sim uma das confusões que rondam nossa cabeça. Querem ver só como a coisa acontece?

Semana passada, o filhote começou com uma febrinha. Começou na sexta à noite e, de madrugada, precisamos medicar. Não foi uma noite boa. Sábado de manhã, diferentemente do que normalmente acontece aqui em casa, acabamos ficando de molho na cama. Um pouco para repor a noite mal dormida, um pouco porque o mal estar do pequeno não tinha passado.

Vocês sabem quantos sábados eu fiquei na cama até as 11 h depois que virei mãe? Pouquíssimos! Não vou negar que estava gostando da preguiça, mas ela estava lá – a culpa – atormentando minha boa preguiça porque eu estava curtindo às custas da febre do meu filho.

Mesmo medicado, o filhote passou o final de semana todo caidinho, pedindo muito colo – pedindo colo o tempo todo, para ser mais exata. Como já não consigo ficar muito tempo com ele no colo (porque já são quase 13 quilos!), ficamos jogados no sofá.

Passar o final de semana no sofá, vendo filme e comendo pipoca era um programa recorrente na minha vida pré maternidade – adoro, adorava. Mas claro que a culpa de estar com um filho febril não me deixou aproveitar plenamente esse momento.

A culpa cresce com a maternidade

Eu já não sou uma super cozinheira – para falar a verdade, cozinhar não é meu programa favorito. Com um filho a tira colo, então, é ainda mais difícil! Resultado: só fiz coisas fáceis nesse finde – que eu pudesse pegar do freezer e colocar no forno. E a culpa por não oferecer a refeição mais saborosa e nutritiva do mundo para meu filho? Estava lá, presente!

Domingo à tarde a febre ainda persistia, então, levamos o filhote ao pronto atendimento. E a cara da enfermeira ao me ouvir dizer que ele estava com mais de 39º C desde o dia anterior? Era a minha culpa expressa nas palavras de outra pessoa!

Segunda ele ainda acordou ruizinho e não foi para o colégio. Eu acabei trabalhando de casa e, claro, tive que me dividir entre trabalho e filho. Acho que essa é a culpa mais recorrente entre as mães que conheço.

Faringite diagnosticada, criança medicada, remédio fazendo efeito, e o pequeno foi voltando ao normal. Não fez febre o dia todo, comeu bem, brincou. E o sol, finalmente, resolver aparecer por aqui – tínhamos que aproveitar! Fomos ao parquinho perto de casa. Ele estava brincando há uns 5 minutos, no máximo, tropeçou e caiu de boca no chão.

Vocês podem imaginar o nível estratosférico que chegou a minha culpa nesse momento: por que raios eu ousei sair de casa?

Mãe convive com a culpa na cabeça

No dia seguinte, deixei o filhote no colégio – porque ele já estava bem melhor e a vida continua, afinal de contas. E ele ficou aos prantos – com a boca toda inchada (tadinho!). Enquanto eu corria para o trabalho, tentando não chegar atrasada na reunião marcada para aquela manhã, a culpa ia escorrendo pelo olhos, bem devagarinho.

Parece que chegamos a duas grandes verdades:

  • cabeça de mãe é sempre confusa;
  • cabeça de mãe convive com a culpa.

Se a Disney/Pixar tivesse feito o filme “Divertida mente” se passando dentro da cabeça de uma mãe, certamente a Culpa seria umas das personagens principais. Sempre cutucando as outras emoções dentro do nosso “centro de controle”.

Não gosto muito da frase “junto com a mãe, nasce também a culpa”. Definitivamente, a culpa não é privilégio das mães. Mas não posso negar que, vira e mexe, ela toma o papel de protagonista em nossas cabeças. Pelo menos, que fique sempre por lá! Sem se espalhar pelo restante do nosso corpo, especialmente o coração. E que não chegue – nunca! – a atrapalhar o amor que nutrimos por nossos filhos.

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