Vamos falar sobre desigualdade social. Porque sim, ela existe. Sábado passado estávamos almoçando na praça de alimentação de um desses grandes supermercados de rede – eu, meu príncipe e o Vinicius.

Estava friozinho, claro (os dias são de inverno, afinal), mas fazia sol e um céu azul lindo, quase sem nuvens. Eu vestia uma blusa azul – da cor do céu – escolhida pelo filhote: “coloca essa, mamãe, porque eu acho essa cor linda!” (sim, eu deixei meu filho de 3 anos escolher minha blusa nesse dia).

O Vinicius tem se tornado, cada vez mais, um bom parceiro de programas. E quando eles está assim, especialmente comportando e querido, temos prazer em sair com ele para um programa que adoramos: comer fora.

Pois bem, sábado passado, ele me acompanhou lado a lado no buffet e fomos conversando sobre as opções disponíveis do que iríamos almoçar – “vamos dividir o prato, mamãe?” Sim, gostamos de dividir o prato (já fazia isso com o meu marido, agora faço com o meu filho e adoro!).

Logo após sentarmos numa das mesas, enquanto esperávamos meu marido se servir, na mesa ao lado, sentaram duas crianças – um menino e uma menina – e ficaram nos observando. Meu príncipe chegou com seu prato e os dois continuavam olhando – isso começou a me incomodar.

Correspondi ao olhar e nem precisei dizer nada. A menina logo soltou: “estamos com fome”. Minha imediata reação foi pedir para meu marido fazer um prato de comida para cada. Mas enquanto ele preparava os pratos, fiquei conversando com os dois desconhecidos.

Eles disseram seus nomes, Gabriel e Gabriela, de 11 e 10 anos, respectivamente. Eram irmãos. Contaram que moravam longe e chegaram ao supermercado caminhando mesmo – vinham vendendo pulseirinhas de plástico (ou elástico de cabelo, não consegui definir o objeto ao certo).

Quando perguntei porque estavam sozinhos, responderam que a mãe era operada do coração e estava em casa (sob os cuidados de outra irmã) e o pai não morava com eles. O Vinicius, que estava do meu lado o tempo todo, almoçando, não disse nada nesse momento – logo ele, sempre tão falante.

Apenas depois do Charlles entregar o prato e o suco de cada um dos irmãos (eles também disseram que estavam “morrendo de sede”) e de eu ter ajudado a mais nova a cortar em pedaços a sua carne, foi que o filhote resolveu mostrar que ouvia tudo atentamente.

– Mãe, por que eles estão sem a mamãe o papai deles? Por que não estão os 4?

Repeti a história que as crianças haviam contado, esclarecendo o que era “operada do coração” – que ele não tinha entendido – e o porquê de o pai não morar com eles – que eu, de fato, não sabia. Ele levou um tempo para assimilar que aquelas crianças estavam “sozinhas”. Sua referência, até então, sempre foi de crianças com pais por perto.

Daqueles momentos complexos da vida que a gente tenta simplificar para os filhos. Mas sabemos que assunto não vai morrer ali.

Depois do almoço, o Vinicius não tocou mais no assunto – nem nós. O que não quer dizer que a cabecinha dele não ficou digerindo o ocorrido. O sábado seguiu normalmente, jantamos na casa de amigos, o pequeno brincou até não poder mais. Domingo pela manhã, ele acordou perguntando para o meu príncipe o que era uma pessoa “operada do coração”.

Ele ainda é muito pequeno, mas já vê exemplos da desigualdade social que existe no nosso dia a dia. Já acha estranho crianças que não estão acompanhadas dos pais e pais que não moram com seus filhos. O que eu fiz, nesse primeiro momento, foi mostrar que sim, existem realidades diferentes da nossa.

Isso se chama desigualdade social.

Conheço meu filho. Sei que ele não ficou satisfeito com isso e tenho certeza de que não deu o assunto por encerrado. Ainda terei muitas oportunidades de falar sobre desigualdade social, composição familiar, cidadania, senso crítico. E outros tantos assuntos complexos, mas necessários.

Por hora, ele entendeu que nossa família é de 3 (“4 com o Loly”, ele mesmo corrigiu) e a família daqueles irmãos era para ser de 4 (pai, mãe e os 2 filhos). Mas talvez fosse de 3 (sem o pai), talvez mais (afinal, parece que eles tinham mais irmãos). De todo modo, eles estavam sozinhos mesmo assim.

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