Hoje tem texto superespecial por aqui. É incrível a quantidade de amigas – próximas mesmo – que eu tenho que estão com (ou tiveram) dificuldades diversas para engravidar. Por acompanhar de perto essas histórias, sei que não é fácil quando o sonho de ser mãe (ou pai) não é bem-sucedido.

Pensando em ajudar de alguma forma essas pessoas, pedi para uma amiga querida – que persistiu nesse sonho e hoje é mãe de uma flor de menina – contar sua história. Carla Abate Reis de Assis, muito obrigada por compartilhar tua caminhada para engravidar conosco!


 

Início de 2011. Vida mais estabilizada, 3 anos de casamento… Hora de aumentar a família! Certo? Quase… Não antes de passar por alguns momentos difíceis, algumas lutas, algumas lágrimas, muitas inseguranças! Mas, se alguma coisa tenho aprendido é que a luta é inerente e indispensável a essa nossa vida aqui: “A luta é a lei da vida”*, como já ensinou um pensador e humanista muito importante para mim.

O primeiro Beta HCG positivo já chegou com desconfiança. Quem já viveu a experiência com problemas gestacionais deve conhecer bem a expressão “borra de café”. Então, foi assim que começou. Após um acompanhamento intenso da evolução do Beta HCG (outro nome que escutei muuuuuito) e também de exames de imagens, percebemos que havia sinais de gravidez ectópica (fora do útero). Sinal de perigo e atenção máxima. Nunca ficou comprovado se foi isso mesmo ou um aborto normal, porque, após um período, o beta HCG começou a cair e meu corpo eliminou o problema sozinho.

Após um período de paciência exigida ao máximo, hora de tentar novamente.

Desta vez, daria certo! Um probleminha na primeira tentativa é normal, né?! Setembro de 2011: oba! Beta HCG positivo de novo! Poucos dias depois, foi hora de fazer as malas e ir para Jericoacoara, no Ceará! DELÍCIA de lugar, recomendo! Só não recomendo se você está grávida e com temor de perder o bebê de novo, porque para chegar lá é um chão. E ainda fui de Fortaleza até lá num 4×4, pela praia. Mas tudo bem: a semana foi tranquila, estava tudo certo.

Na volta, estando em Curitiba, antes de pegar a estrada para Joaçaba/SC (onde morávamos), olha ela de novo: a tal “borra de café”! Viagem tensa de 8 horas, direto para o médico, direto para o exame: descolamento do saco gestacional. Direto pra casa: repouso. Aí começa aquela vida de olhar o tempo todo como vai a “borra de café”, se ainda é café ou se está mais vermelha; se intensifica ou se parece que está diminuindo… Fiquei de molho uns 15 dias. Ainda bem que minha querida mamãe, que morava a mais de 1000 km de distância, logo foi nos socorrer. Mas… Novo aborto… Terminei no centro cirúrgico para uma curetagem.

Não é nada bom que todos aqueles planos, sonhos e sensações, terminem dessa forma!

Mais 6 meses de paciência. Paciência inteligente, em que procurei realizar outras coisas interessantes enquanto esperava. E também optei por fazer uma investigação. Meu esposo e eu fizemos uma batelada de exames clínicos e laboratoriais em Belo Horizonte. Um deles, genético, acusou uma mutação em um gene de trombofilia: o metilenotetrahidrofolato redutase. Vou contar uma coisa: tenho a pior memória que conheço, esqueço tudo. Mas esse nome não esqueci (nem o do Beta HCG!). Porque esse tal gene, justamente ele, é o mais controverso em relação à trombofilia, e não havia consenso entre ele ser ou não responsável pelos problemas, ser ou não necessário tomar injeções de anticoagulante (heparina) na gravidez. Nessas horas, a gente quer mais é encontrar uma causa que explique os fatos (ainda mais se esta causa for contornável). Mas, no meu caso, obedecendo à famosa “Lei de Murphy”, se podia ser mais complicado… seria mais complicado!

Em Joaçaba, os médicos nunca tinham ouvido falar em metilenotetrahidrofolato redutase, mas como estava lá no trio da trombofilia, queriam me tratar como tal. Um me pediu um tempo para pesquisar, outro abriu o Google, e um terceiro me perguntou se eu realmente continuava querendo ter um filho (de arrasar, né?!) O médico de Belo Horizonte – que fez toda a pesquisa – dizia que não; não precisava do anticoagulante. Para tirar a prova dos nove, fui parar em um obstetra especialista em gestação de risco, em Curitiba. Este, com toda a sua experiência e segurança me disse: NÃO se trata essa mutação com heparina; heparina não é inofensiva como água com açúcar!

E foi assim que parti para a nova tentativa.

A única precaução seria tomar ácido acetilsalicílico (anticoagulante leve) e progesterona, assim que soubesse de gravidez. E assim partimos para o terceiro Beta HCG positivo, e, agora, com precauções! Não tinha como acontecer de novo, certo? Uma semana depois do primeiro exame, já calejada, fiz uma nova medição do Beta. Sabe aquela onomatopeia de decepção: “fom fom fom fom foooom”. Pois é. O danado do hormônio havia diminuído. Já era. Desta vez, pelo menos, foi mais simples.

Mas, foi aí que meu otimismo fugiu e deu lugar a um enorme temor de que nunca seria possível. Os dois primeiros episódios – mais complexos – causaram sofrimento, mas esse último – embora mais simples – causou ainda mais. Três vezes… Já estava notório que, para mim, não daria. E minha imaginação começou a devanear, sugerindo que haveria algum motivo “maior” para aquilo e que seria até um risco insistir!

Liguei para aquele médico de Curitiba e ele me indicou uma médica “bam-bam-bam” da UNIFESP, em São Paulo, especializada em abortos de repetição. E é aqui que chegamos na maior razão para eu descrever tudo isso: na consulta, ela mostrou várias estatísticas (que agora não me lembro em números), demonstrando que muitos casos de perda gestacional não se explicam pela Medicina atual; demonstrou-me que é mais comum do que eu imaginava e, o que mais ficou desta conversa, foi: que em não sei quantos anos de experiência dela, NENHUM casal que passou por ela deixou ter seu bebê; com um detalhe: muitos tiveram filho sem fazer absolutamente nada, sem qualquer tratamento, por não se ter encontrado a causa…E relatou diversos casos. Saí daquela consulta completamente diferente de como entrei: renovada, esperançosa e disposta a enfrentar expectativas e frustrações quantas vezes fossem necessárias!!

Alguns meses depois… grávida de novo!

As semanas foram passando, eu sendo cautelosa e tomando os supostos medicamentos preventivos (AAS, ácido fólico, vitamina E e progesterona). Começaram até os enjoos … Seria um sinal de que, desta vez, tudo ia bem? Nona semana: um belo dia, fui ao banheiro e saí de lá com um grito dolorido. Não era nem borra de café, era sangue vivo mesmo. E não era pouco.

Chorei muito, esquecendo-me momentaneamente do propósito de viver o problema serenamente: tudo de novo?!! Por quê?! Agora foi um descolamento de mais ou menos 75% do saco gestacional! Mas o coraçãozinho do embrião, não sei como, batia no compasso normal! Ainda assim, acho que ninguém tinha muita expectativa, muito menos os médicos. Minha mãezinha, no dia seguinte já chegou a Joaçaba.

E sob os cuidados dela, depois de duas semanas realizando exames periódicos sem alterações, uma enorme surpresa: o saco gestacional apareceu quase totalmente reabsorvido, faltava pouco para estar todo “coladinho”! Nem sei expressar o que senti (mas não podia sair pulando, né?!)! Depois de 2 meses bem quietinha, fui aos poucos retomando a vida. No sexto mês fizemos até nossa mudança para Curitiba (surgiu a oportunidade e a agarramos, pois temíamos um parto prematuro e queríamos estar numa cidade com melhor infraestrutura médica).

E foi assim que, em março de 2013, chegou minha florzinha, muito valente, destemida!

Ela é assim, mesmo! Sim, ela deu mais um sustinho nascendo um pouco antes, com 34 semanas, no meio da madrugada. Ficou uma semana na UTI neo-natal, mas sem muitos riscos.

Evidentemente as lutas não acabaram aí… A chegada de um bebê revoluciona a vida e o que vivi depois é um capítulo à parte. Mas valeu cada lágrima, cada angústia, cada luta – que, afinal, tanto ensinam! E hoje a carinha feliz desta menininha, deste serzinho que espero que tenha vindo para colaborar com o mundo, não deixa a menor dúvida do acerto no caminho percorrido!

Carla Abate Reis de Assis

*Da Logosofia

PS: Apesar dos probleminhas médicos para casos pontuais, Joaçaba é uma cidade incrível, que eu amo! 🙂

Os médicos que atenderam a Carla e ajudaram a engravidar foram:
– Dr. Denis Nascimento – Curitiba
– Dr. Carlos Minner (quem acabou acompanhando o final da gravidez e o parto) – Curitiba
– Dra. Rosiane Mattar (da UNIFESP)

 

Se mais alguém por aí quiser compartilhar sua história para engravidar, seja bem-vinda!

 

Mais informações sobre trombofilia e engravidar: nesta matéria da Crescer.

 

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